Coscuvelhices da Berta Brás


“Olha se não tem dado uma dor de barriga ao polícia!” PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Segunda, 31 Agosto 2009 11:26

            Tratou-se de uma notícia do “Correio da Manhã” sobre um Damásio, e logo eu, na imprecisão do meu saber, lembrei um nosso sábio português, neurologista, famoso.

            Não tinha nada a ver. Este meu era António, o dela parece que se chamava Manuel, mas não tinha bem a certeza, e eu aproveitei para lembrar a necessidade de rigor nos dados.

            - O gajo foi presidente do Benfica. É podre de rico. Tem uma casa à venda por quinze milhões de euros na Quinta da Marinha. Tem só nove quartos e doze casas de banho e duas piscinas. Podre de rico porquê? Há dez anos pôs o ordenado mínimo na declaração. Era um Zé Ninguém, não sei bem o quê. A não ser que o homem diga que lhe saiu o euromilhões.

            Suspirei, na visão radiosa de uma perspectiva que tantos de nós – todos, com certeza - ambicionamos ingloriamente, prometendo semanalmente e suplicantemente a Deus que, se nos sair, faremos muita gente feliz. Baldadamente.

            Mas a minha amiga não vai em rezas, sempre de má vontade contra os ricos que, sendo pobres antes – pés rapados, diz ela, ou mesmo com calçado da feira – de repente brotaram em finanças, implicados em maroscas, amigos de outros poderosos, todos se interapoiando e todos brotando e “rindo”, como os “espertos regatinhos” da Serra que Jacinto e Zé Fernandes subiram de regresso a Tormes. Só que estes riam “com os seixos”, ao passo que aqueles riem “dos seixos”, que somos todos nós. Mas a minha amiga continuou:

            - “Tudo pode ser é ladrão, porque se não for ladrão não tem safa”.

            E citou mais um caso, o de Dias Loureiro, que também leu no “Correio da Manhã”, mas todos os jornais publicitam:

            - Descobriram-se documentos incriminatórios, de fraude, burla, branqueamento de capitais, sabe aonde?

            Ainda não sabia, sempre confiada no saber dela.

            - Num esconderijo, ao pé da casa de banho. Mas logo Loureiro afirmou a sua inocência: Se tivessem importância já tinham sido destruídos”. Mas há alguém que tenha a consciência mais tranquila do que eles? Não há. Que grande pouca vergonha! Dá vontade de dizer assim: “Olha se não tem dado uma dor de barriga ao polícia!

            - De facto, confirmo eu, já na mesma onda. Foi uma dor de barriga providencial!

            - Qual quê! Vai ver o que agora se vai dizer cá para fora! Enxurrada ou não, fica tudo na mesma!

            - Pois! O autoclismo tudo lava. Melhor dizendo, purifica.

 Berta Brás
 
“Fizeram um mau serviço? Vão para Bruxelas!” PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Sábado, 15 Agosto 2009 20:17

Perguntou-me o que pensava sobre o Medina Carreira, mas o que ela desejava mesmo era dizer-me o que pensava, pois quando alvitrei, timidamente - Ele tem muitas razões, mas a forma de dialogação é bastante displicente...  logo a minha amiga, depois do seu apoio  - Sim, o jornalista merecia elogio, aceitou muito bem, sem se zangar, as opiniões agressivas, espero que os directores dele reconheçam isso, embalou num entusiástico louvor ao ilustre causídico que disse coisas que nos caem no goto.

            -  O que Medina Carreira diz é tudo verdade.

            - Pois, mas a forma como o disse teve muito pouco nível. Lembro que disse: “qualquer pateta faz o mesmo”, “vocês contentam-se com qualquer coisa” “o problema não é esse...” , como se fosse o rei do mundo ou o detentor do saber, ou se estivesse em conversa exaltada de botequim.

            - Mas também disse que os que vão para o governo não passam de pilha-galinhas antes, e saem todos ricos e bem governados depois. Além dos conluios que apontou entre Empresariado e Banca e Governo. E os empregos para os amigos e familiares dos governantes...  E não é o que se tem visto?

            - Isso é, mas ele também já foi governo, não sei se tem culpas no cartório, ou se está a lutar por o reconquistar.

            - Não deve precisar, pois tem bastante obra, ao que parece.

            - Mas esse facto devia torná-lo mais modesto, menos grosseiro nas afirmações, e não tratar quem o entrevista – neste caso o José Gomes Ferreira – com uma má-criação do estilo do nosso Jardim. Afinal, Jardins não nos faltam. O que nos falta é bem-estar, mesmo mediano. E a dívida ao Estrangeiro, cada vez mais catastrófica.

            - E já viu como o Governo também faz de nós atrasados mentais? Vêm umas informações lá de fora – precisam de ser lá de fora para terem credibilidade – sobre a retoma e logo o PS embandeira em arco, em auto-elogio descarado, para os votos dos parolos. Quantas vezes já estivemos em retoma com este governo?  E as fábricas continuam a fechar, e o desemprego a aumentar e nós a importar e a exportar menos e menos. Ele tem toda a razão.

            - Ninguém nega isso. Mas acha que é uma pessoa como ele, tão “saracoteante” que merece a nossa confiança?

            - E haverá alguém que a mereça? Saracoteantes são todos, a atacar-se uns aos outros, sem educação. Somos um país sem rumo e sem freio. E se derem más provas e tiverem que ser despedidos, logo melhores soluções se fabricam  para as suas vidas. Fizeram um mau serviço? Vão para Bruxelas!

                                                      Berta Brás
 
“Eu acho que eles deviam pagar do bolso deles” PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Quinta, 13 Agosto 2009 13:01

Li à minha amiga o comentário da minha filha ao texto sobre a entrevista a Santana e a Costa: “Haverá diferença entre as palavras e os actos de uns e os actos e as palavras de outros? Gosto mais de ti e da tua amiga”.

                E logo a minha amiga, desembestada, sem me dar ocasião a repontar, no orgulho de quem se acha com o exclusivo dos saberes:

                - Eu acho que eles deviam pagar do bolso deles. Não é que fosse o Santana! Todos fizeram despesas estúpidas, de país rico. Acho um escândalo, tão grande, tão grande, tão grande! Nunca se pôs a hipótese de alguém ser castigado. Fizeram tudo como se estivessem num país rico. É assessora p’ra isto, assessora p´r’àquilo! E os prédios lá ficaram, todos a cair, e as instalações eléctricas completamente perigosíssimas, naqueles prédios podres. Há muito prédio podre! É o Santo António que os protege. E depois há a outra parte rica. Metade, metade.

                Timidamente lembrei as favelas do Rio, como termo de comparação, e informei que os da parte rica também se queixam, da falta de verde, da falta de limpeza, da poluição dos carros... Não quis ouvir.

                - Gostaria de saber qual foi o melhor presidente da Câmara.

                - Nuno Abecassis?

                - Não sei se foi melhor mas trabalhou com menos mordomias. Eles são os primeiros a reconhecer que não prestam, eles dizem isso, essa é que é uma verdade. Deviam ter feito mais. Lisboa é de facto uma cidade original. Deixaram degradar. Eu, quando ia de autocarro, fartava-me de olhar para os prédios. Está tudo muito estragado. Uma cidade com o Tejo a seus pés!

                 Eu também costumava olhar, no tempo em que por lá andava, via o típico das ruelas, mas as roupas nas varandas sempre me envergonharam. Uma capital com tanta lavagem de roupa suja à mostra! Não achava graça.

                 E os Jardins de S. Pedro de Alcântara, onde levava os alunos para lerem as descrições de Lisboa n’ “Os Maias” sob esse ângulo! Tudo sujo das folhas caídas, mas tão belo! Tudo tão belo e tão em ruínas!

                Mas as ruínas vão progredir, pois em alguma coisa merecemos ter progresso.

                No fundo, todos damos razão a Medina Carreira quando refere que os governos aqui se processam, numa alternância partidária de colocação dos familiares e amigos dos governantes. A maioria entrou pobre e saiu rica. E Medina Carreira apresenta números.

                As nossas ruínas são para continuar.

 


olhei e vi...

Passou por nós com as vestes negras cobrindo quase até aos pés o corpo de uma amplidão desconforme. Vestes largas e longas e pretas como as das ciganas viúvas, talvez para não se ver a largura das pernas e o negro dos tornozelos, um dos quais envolto em ligadura, da má circulação ameaçando trombose, úlcera varicoza, flebite, coisas assim de nomes assustadores.

                Encontramo-la no café, aos domingos, às vezes com o filho, mais disforme ainda que a mãe, em tamanho exigente de roupas desmesuradamente amplas que deve ser complicado obter. Parece não ter ainda trinta anos, a mãe com cinquenta e cinco, ouviu-a a minha amiga dizer. O marido, magro e de olhar triste, com ar de quem sofre, sem esperança, uma tão pesada carga.

                A minha amiga chama sempre a minha atenção, quando os vê passar. E desabafa a sua revolta, num quase monólogo em catadupa de frases:

                - Porque é que estas pessoas não são ajudadas de alguma maneira? Porque prometeram que, quando ficassem em listas de espera seriam mandadas para a Europa! Até nos tira o ar só de ver. Isto é uma doença gravíssima. Se estas pessoas não são operadas é porque estão em listas de espera. É muito mais que obesidade. É gravíssimo. Eu não sei como ela se senta naquela cadeira, deve ter mais de duzentos quilos. O que é que pode acontecer a uma pessoa dessas? Porque é que não há alguém com dinheiro que mandasse fazer a operação?

                Acabrunhada, acrescenta:

                - O pior é que a pessoa faz a primeira operação que é para pôr a banda gástrica. Sobram quilos de pele para operar, operar, ir operando... Se a operação fosse só uma! Mas não é, infelizmente. Eles sofrem muito e não é porque comam muito, deve ser alguma disfunção metabólica. Deve ser por isso que andam por aqui e ninguém vê.

                No meu caso, prefiro, de facto, não olhar. Por delicadeza, acho eu, com receio de que se sintam ofendidos, como bobos em exposição.

                Mas o quase monólogo da minha amiga saiu assim, como explosão de revolta inútil, tomada a bica do nosso “carpe diem” da coscuvilhice, em fuga breve à digna missão doméstica.